Artigo de Opinião
Publicado no Suplemento de Seguros, do Jornal VidaEconómica, a 10 de Julho de 2026.
Diretor Geral da DefendeRisk Consultoria, Engenheiro Lúcio Pereira da Silva.
Cibersegurança não chega: o seguro como solução na defesa financeira
A digitalização muito acelerada das empresas trouxe ganhos evidentes de eficiência, escala e competitividade, mas trouxe também um novo tipo de vulnerabilidade, o risco de ataques cibernéticos. Hoje, qualquer empresa seja da indústria transformadora, serviços ou do pequeno comércio, dependem de sistemas digitais que podem ser interrompidos, corrompidos ou sequestrados, quando isso acontece, o impacto já não é apenas tecnológico, é fi nanceiro, operacional e reputacional.
Neste contexto os seguros cibernéticos são a solução como a última linha de defesa financeira, num cenário onde a cibersegurança, por si só, deixou de ser suficiente.
Perante este cenário a primeira constatação é simples, não existe segurança absoluta. Mesmo empresas com equipas de IT dedicadas, firewalls avançadas e auditorias regulares enfrentam um risco residual que nunca desaparece. A sofisticação dos ataques cresce mais rápido do que a capacidade das organizações de se protegerem. O ransomware tornou se uma indústria global, com grupos organizados que operam como verdadeiras empresas, com departamentos de desenvolvimento, marketing e atendimento ao “cliente”. A pergunta deixou de ser “se” a empresa será atacada,mas passou a ser “quando”.
Quando o ataque acontece, o prejuízo raramente se limita ao custo técnico de recuperação. Há interrupção da atividade, existe perda de dados, de contratos, penalizações contratuais, danos reputacionais e, em casos extremos, a paralisação total da operação.
Para muitas empresas, especialmente as PME, um ataque cibernético grave pode significar a diferença entre continuar a atividade ou encerrar as portas. É aqui que o seguro cibernético assume um papel importante e estratégico, funciona como amortecedor financeiro num momento em que a empresa está mais vulnerável e dependente.
Contudo, o seguro não substitui a cibersegurança mas sim complementa-a. As seguradoras exigem níveis mínimos de proteção, políticas internas, backups testados e práticas de gestão de risco. O seguro não é um “atalho” para quem não investe em segurança, antes é um instrumento para quem reconhece, que apesar de todos os esforços, o risco nunca desaparece totalmente. Esta relação é, aliás, saudável: incentiva as empresas a elevar o seu nível de maturidade digital, ao mesmo tempo que lhes oferece uma rede de proteção quando tudo falha.
Mas há um ponto crítico que merece reflexão, o seguro cibernético não deve ser visto como uma solução mágica. Ele cobre danos financeiros, mas não elimina o impacto reputacional nem substitui a necessidade de resiliência operacional. Além disso, o mercado ainda está a amadurecer. As seguradoras enfrentam desafios na modelação do risco, na definição de prémios e na avaliação da exposição real das empresas.
O risco cibernético é dinâmico, global e imprevisível estas características fazem com que o seguro seja muito mais complexo do que os seguros tradicionais de multirriscos, nos ramos patrimoniais.
Ainda assim, ignorar esta ferramenta é um erro estratégico. Num ambiente onde a dependência digital é total, a ausência de seguro expõe a empresa a um risco financeiro desproporcional. O seguro cibernético não é apenas uma despesa, é uma medida urgente implementar na continuidade de negócio. É uma forma de garantir, que mesmo perante um ataque devastador, a empresa mantém liquidez, cumpre obrigações e preserva a sua capacidade de recuperação.
Em última análise, a discussão não é sobre substituir cibersegurança por seguro. É sobre reconhecer que a proteção digital moderna exige camadas, como se de uma “ cebola “ se tratasse, prevenção, deteção, resposta e, finalmente, mitigação financeira.
A cibersegurança é a primeira linha de defesa. O seguro é a última. E num mundo onde o risco digital é inevitável, ter ambas deixou de ser opcional, tornou-se fundamental para a sobrevivência empresarial.

