Artigo de Opinião

Publicado no Suplemento de Seguros, do Jornal VidaEconómica, a 11 de Setembro de 2026.

Diretor Geral da DefendeRisk Consultoria, Engenheiro Lúcio Pereira da Silva.

 

O Seguro de Crédito é uma proteção que deixou de ser opcional

 

Num contexto económico marcado por uma volatilidade crescente, ciclos curtos e cadeias de fornecimento cada vez mais interdependentes, o risco de incumprimento comercial tornouse uma das maiores ameaças à estabilidade fi nanceira das empresas. A globalização trouxe oportunidades, mas também expôs as empresas a clientes mais distantes, mercados menos previsíveis e níveis de risco que já não podem ser avaliados apenas com base na experiência ou na relação histórica com o cliente. É neste cenário que o seguro de crédito assume um papel central, não como um instrumento complementar, mas como uma verdadeira ferramenta de sobrevivência empresarial.

O primeiro ponto crítico é simples, a maioria das empresas não quebra por falta de vendas, mas por falta de liquidez. Um único cliente que possa falhar um pagamento relevante pode comprometer salários, fornecedores, investimentos e até a continuidade operacional da empresa. Quando analisamos o impacto real de um incumprimento, percebemos que o prejuízo não se limita ao valor da fatura não paga, pode incluir também o custo da produção, o tempo investido, a perda de margem no negócio, a quebra de confi ança e muitas vezes, a impossibilidade de recuperar o crédito por via judicial. Em setores como construção, indústria, distribuição ou exportação, um sinistro de crédito pode facilmente ultrapassar centenas de milhares de euros, valor sufi ciente para desestabilizar qualquer emopresa que opere com margens apertadas.

É precisamente para mitigar este risco que o seguro de crédito existe. Ao contrário de uma perceção ainda comum, estas apólices não se limitam a indemnizar a empresa quando o cliente não paga. O seu valor reside sobretudo na gestão preventiva do risco, através de ferramentas que nenhuma empresa consegue replicar internamente: análise de solvabilidade, monitorização contínua de clientes, alertas de deterioração fi nanceira, limites de crédito ajustados à realidade e informação privilegiada sobre comportamentos de pagamento em múltiplos mercados. Esta componente de inteligência fi nanceira é, por si só, uma vantagem competitiva.

No entanto, o ponto mais sensível e muitas vezes negligenciado reside nas garantias e capitais seguros. Um seguro de crédito não é um produto padronizado, é um contrato técnico que deve ser de acordo com o perfi l da empresa, com o volume de vendas, o tipo de clientes, o risco setorial e a exposição internacional. As apólices incluem normalmente garantias como a cobertura de insolvência, a mora prolongada, o incumprimento político, o risco de catástrofe, a recuperação de crédito, a análise de risco e o apoio jurídico. Mas estas garantias variam signifi cativamente entre seguradoras e entre níveis de cobertura. Uma empresa que contrate uma apólice com capitais insufi cientes pode ter uma falsa sensação de segurança quando ocorre um sinistro de grande dimensão, o limite contratado pode ser rapidamente ultrapassado, deixando parte substancial do prejuízo a descoberto e da responsabilidade da empresa.

A questão dos capitais seguros é, por isso, determinante. Em muitos casos, as empresas optam por capitais reduzidos para baixar o prémio, mas esta decisão pode revelarse fi nanceiramente desastrosa. Uma cobertura de 500.000 € pode parecer elevada, mas se a empresa trabalhar com 2 ou 3 clientes de grande dimensão, um único incumprimento pode consumir a totalidade do capital. É fundamental que o capital seguro seja dimensionado não apenas para o volume anual de vendas, mas para o risco máximo de exposição por cliente. A falta desta análise é um dos erros mais frequentes na contratação destas apólices por parte dos segurados.

Outro ponto essencial diz respeito às responsabilidades da empresa segurada. O seguro de crédito não é um contrato passivo; exige disciplina comercial, cumprimento de procedimentos, comunicação atempada de atrasos, respeito pelos limites de crédito atribuídos e atuação conforme as orientações da seguradora. Quando estas responsabilidades não são cumpridas, a cobertura pode ser reduzida ou mesmo anulada. Muitas empresas desconhecem que a simples concessão de crédito acima do limite autorizado pode comprometer a indemnização. A gestão interna do risco deve, portanto, estar alinhada com as regras da apólice contratada.

A ausência de seguro de crédito expõe a empresa a um conjunto de riscos que, na prática, são impossíveis de controlar apenas com mecanismos internos da empresa. Em última análise, o seguro de crédito não deve ser visto como um custo, mas como um instrumento de estabilidade financeira, que protege a tesouraria, sustenta o crescimento, permite expandir para novos mercados com segurança e reduz drasticamente a probabilidade de uma crise de liquidez.
Num ambiente empresarial onde o risco é estrutural e não conjuntural, a proteção adequada deixou de ser uma opção. É uma decisão estratégica que separa empresas resilientes de empresas vulneráveis.